Xadrez e Tarot: A arte de jogar com os arquétipos
Artigo publicado na Revista FAE nº 28 Setembro 2025

Xadrez e Tarot: A Arte de Jogar com os Arquétipos
O xadrez e o Tarot, à primeira vista, habitam mundos distintos. Um é jogo de estratégia, lógica e cálculo; o outro, um oráculo de mistério, intuição e símbolos. Mas quando olhamos com atenção, percebemos que ambos são mapas da alma — sistemas simbólicos que espelham a jornada humana, suas escolhas, seus conflitos e sua busca por sentido.
Neste artigo, proponho uma leitura cruzada entre o tabuleiro de xadrez e os Arcanos do Tarot, revelando como cada peça e cada carta representam arquétipos, vibrações e estados de consciência. Jogar xadrez, assim como lançar cartas, é entrar em um campo onde o destino e o livre-arbítrio se entrelaçam.
Os Arcanos Maiores: As Peças como Arquétipos
No Tarot, os Arcanos Maiores representam os grandes arquétipos universais — forças que moldam a psique e a experiência humana. No xadrez, cada peça pode ser vista como a manifestação de um desses arquétipos, atuando no tabuleiro como personagens de uma narrativa simbólica.
Peões – O Louco Os peões são os iniciantes, os que se lançam ao desconhecido. Como O Louco, eles avançam com fé, mesmo sem garantias. São numerosos, aparentemente frágeis, mas carregam o potencial da transformação. Um peão que chega ao fim do tabuleiro pode se tornar qualquer outra peça — é o Louco que, ao completar sua jornada, revela seu verdadeiro poder.
Rainha – A Imperatriz A Rainha é a peça mais poderosa do jogo, movendo-se livremente pelo tabuleiro. Ela encarna A Imperatriz, arquétipo da criatividade, da fertilidade e da força intuitiva. É a mãe estratégica, que protege e domina com sabedoria. Sua presença é vital, e sua ausência pode desestabilizar todo o jogo.
Rei – O Imperador O Rei é o centro do jogo — sua queda encerra a partida. Embora limitado em movimento, sua importância é absoluta. Ele representa O Imperador, símbolo da ordem, da autoridade e da estrutura. Sua função é manter o equilíbrio, mesmo que não esteja na linha de frente.
Bispos – O Hierofante (O Papa) Os bispos movem-se na diagonal, cruzando o tabuleiro com discrição e sabedoria. São como O Hierofante, o guardião da tradição, da espiritualidade institucional. Eles representam o conhecimento oculto, a fé que guia os movimentos invisíveis da alma. São conselheiros silenciosos, mas decisivos.
Torres – A Torre A associação mais direta e dramática: a peça da torre e a carta A Torre. Ambas representam estruturas, defesas, e também a queda. No Tarot, A Torre é ruptura, revelação súbita. No xadrez, perder uma torre pode significar o colapso de uma estratégia. Ambas nos lembram que nada é permanente — e que a destruição pode ser o início da reconstrução.
Cavalos – O Carro O cavalo, com seu movimento em “L”, quebra padrões e surpreende. Ele é O Carro, símbolo do avanço, da superação de obstáculos. Ambos são forças em movimento, que desafiam a linearidade e trazem dinamismo ao jogo e à vida. O cavalo é o guerreiro que chega por caminhos inesperados.
Os Arcanos Menores: As Emoções e Estratégias da Partida
Enquanto os Arcanos Maiores representam os grandes temas da existência, os Arcanos Menores refletem os aspectos cotidianos — ações, emoções, conflitos e conquistas. No xadrez, eles correspondem às fases da partida, aos estados internos do jogador e às consequências das jogadas.
Paus – A Energia e a Iniciativa Elemento fogo, os Paus representam ação, impulso, criatividade. No xadrez, são os momentos de abertura, ataque e ousadia.
● Ás de Paus: o primeiro movimento, a faísca da estratégia.
● Cinco de Paus: o caos da abertura, conflito entre ideias.
● Rei de Paus: o jogador visionário, que lidera com paixão e coragem.
Copas – As Emoções e Intuições Elemento água, as Copas falam de sentimentos, empatia e intuição. No xadrez, são o lado subjetivo da partida — a leitura do adversário, o medo, a esperança.
● Três de Copas: celebração de uma jogada bem-sucedida.
● Sete de Copas: múltiplas possibilidades, confusão estratégica.
● Rainha de Copas: o jogador que sente o jogo, mais do que calcula.
Espadas – O Intelecto e o Conflito Elemento ar, as Espadas representam lógica, raciocínio e desafio. No xadrez, são os confrontos diretos, os sacrifícios calculados, as jogadas táticas.
● Ás de Espadas: clareza mental, uma jogada decisiva.
● Cinco de Espadas: vitória amarga, sacrifício necessário.
● Cavaleiro de Espadas: ataque veloz, jogada agressiva.
Ouros – A Concretização e o Valor Elemento terra, os Ouros falam de resultados, estabilidade e valor. No xadrez, são os ganhos concretos, as peças capturadas, o avanço dos peões.
● Quatro de Ouros: defesa rígida, proteção de posição.
● Nove de Ouros: domínio do tabuleiro, vantagem consolidada.
● Rei de Ouros: o jogador experiente, que joga com paciência e sabedoria.
O Mago no Tabuleiro: O Jogador como Alquimista
No centro de tudo está o jogador — não como mero executor de jogadas, mas como O Mago, o primeiro Arcano numerado, aquele que domina os quatro elementos: Paus, Copas, Espadas e Ouros. Ele é o alquimista do tabuleiro, o estrategista que transforma intenção em ação, que vê além das peças e das cartas.
O Mago não apenas joga — ele cria. Com uma mão aponta para o céu, com a outra para a terra. Ele canaliza inspiração e concretiza no tabuleiro. Cada jogada é um feitiço, cada sacrifício, uma transmutação. Ele sabe que o xadrez não é apenas cálculo, e que o Tarot não é apenas destino. Ambos são ferramentas de manifestação.
O Campo de Visão: Sete de Paus
A perspectiva do Mago é elevada. Ele enxerga o jogo como quem está no topo de uma colina, como no Sete de Paus. Essa carta representa a defesa de uma posição conquistada, mas também a visão estratégica que só se tem de cima. O jogador vê os movimentos do adversário, antecipa ameaças, escolhe com coragem.
O Sete de Paus é resistência, mas também clareza. É o momento em que o Mago, diante do tabuleiro, respira fundo e decide: não apenas o que fazer, mas como fazer. Ele não joga por impulso — ele joga com propósito.
Conclusão: A Partida como Espelho da Alma
Xadrez e Tarot, juntos, revelam que toda jogada é uma escolha entre arquétipos. O Louco avança como peão, a Imperatriz protege como Rainha, o Imperador sustenta como Rei. O Hierofante guia como bispo, a Torre ruge como torre, e o Carro avança como cavalo. Os Arcanos Menores vibram nas emoções, nas estratégias, nos resultados.
E no centro, está O Mago — o jogador que transforma símbolos em realidade, que vê o tabuleiro como um espelho da alma, e que, do alto do Sete de Paus, enxerga não apenas a próxima jogada, mas o sentido por trás dela.
Jogar xadrez com os olhos do Tarot é mais do que vencer — é compreender. É reconhecer que cada partida é uma jornada, e que cada jornada é uma leitura do que somos, do que buscamos, e do que estamos prontos para transformar.
Por Ricco Valdéz para a Revista FAE (Federação das Artes Esotéricas – edição nº 28 Set 2025)
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