Uma ponte entre o insconsciente e os Arcanos
Artigo publicado na Revista FAE nº 27 Agosto 2025

O Tarot Não é Muleta
A Importância de Preservar o Senso Crítico na Jornada Pessoal
Entre o Mistério e o Livre Arbítrio
O fascínio pelo Tarot transcende modismos esotéricos. Ele cativa justamente por unir arte, mito e psicologia em um conjunto de símbolos que comunicam com o inconsciente. No entanto, ao se tornar presença constante nas decisões pessoais, ele pode comprometer a capacidade humana de escolher por si mesmo. Este artigo é um convite à reflexão sobre os limites entre o uso consciente do Tarot e a dependência emocional e intelectual que o uso excessivo pode gerar.
Quando a Busca por Direção Vira Terceirização
Em momentos de crise, é compreensível buscar um norte. O Tarot pode oferecer uma perspectiva alternativa, abrindo espaço para enxergar possibilidades que estavam encobertas pela confusão emocional.
No entanto, quando cada pequena escolha — como mudar de emprego, iniciar um relacionamento ou até fazer uma viagem — depende de uma leitura, temos um alerta: onde está o protagonismo?
📌 Exemplo: Uma pessoa que consulta as cartas antes de responder mensagens afetivas importantes pode acabar não reconhecendo seus próprios sentimentos, agindo apenas conforme símbolos externos — não por vontade íntima.
A consequência disso é a paralisia decisória: o medo de errar é tão grande que só se age quando uma “autorização simbólica” é recebida. Isso enfraquece a musculatura da tomada de decisão e abre espaço para inseguranças crônicas.
O Papel do Tarot como Espelho Interior
O Tarot não prevê o futuro de forma determinista. Ele revela tendências, padrões emocionais, dinâmicas inconscientes. O verdadeiro valor está em sua função simbólica — ele nos ajuda a dialogar com camadas internas pouco exploradas.
Ao invés de respostas fechadas, ele oferece reflexões abertas. Um bom tarólogo sabe disso e atua como facilitador da autoescuta.
Ao invés de perguntar “Devo terminar meu relacionamento? Na tiragem sai uma carta pesada e de extrema transformação: A Torre – a carta pode levar à seguinte leitura: “O que está ruindo em sua vida precisa ser reconstruído (ou não!) — isso pode incluir relações, mas também pode ser sua percepção sobre elas.” Afinal o Tarot não sentencia! Ele auxilia no processo de tomada de decisão, mas novamente, o libre-arbítrio sempre deve ser considerado em primeiro plano!
Usar o Tarot como espelho é um ato de coragem: encarar verdades internas e se responsabilizar por elas. O risco está em distorcer essa função, buscando no Tarot uma fórmula mágica ou uma decisão rápida sem enfrentamento.
O Senso Crítico: Ferramenta Insubstituível
O senso crítico é como um músculo intelectual — quanto mais exercitado, mais apurado. Ele nos permite pesar cenários, avaliar riscos, dialogar com diferentes perspectivas.
Sem ele, o indivíduo se torna vulnerável a manipulações, dogmas e interpretações simplistas.
Imagine alguém que, ao ouvir uma leitura negativa, muda drasticamente seu plano de vida sem investigar suas próprias motivações, valores ou alternativas. Isso é abdicar do raciocínio.
A dúvida faz parte da vida. Fugir dela buscando respostas prontas é o que enfraquece o senso crítico. O processo de escolha envolve lidar com o desconforto de não saber — e aprender com isso. O benefício da dúvida é saudável, e nos ajuda a ter uma consciência diferente sobre a questão em si.
Equilíbrio: O Tarot como Complemento, Nunca como Comando
Integrar o Tarot à jornada é possível — e pode ser até muito saudável. Usá-lo como complemento à escuta interior, à intuição e ao raciocínio pode enriquecer o olhar sobre a realidade.
Mas isso exige maturidade emocional para saber quando parar de consultar e começar a agir.
A carta do Louco, por exemplo, pode sugerir um salto de fé. Mas será mesmo hora de largar tudo e seguir o impulso? Ou ela está apontando para a necessidade de confiar mais em si?
Decidir exige coragem. O Tarot pode apontar trilhas, mas o caminhar é sempre pessoal. A autonomia cresce quando entendemos que o Tarot pode ampliar o campo simbólico — não substituir o campo de ação.
A Liberdade Está na Escolha
A beleza do Tarot está em sua linguagem metafórica e simbólica, que conversa com a alma. Mas a liberdade de viver vem da capacidade de escolher — inclusive de errar, ajustar o caminho e crescer com os tropeços. O Tarot pode iluminar trechos da estrada, mas é a mente consciente e o coração honesto que determinam a direção. Como toda ferramenta poderosa, ele precisa ser usado com sabedoria, limites e respeito à própria autonomia.
Por Ricco Valdéz para a Revista FAE (Federação das Artes Esotéricas – edição nº 27 Ago 2025)
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